Um levantamento publicado pela edição francesa da Architectural Digest destacou dez pinturas muito conhecidas que, ao longo do tempo, passaram a ser vistas de maneira reducionista ou distorcida. A lista revisita os significados originais, explica por que parte do público se confunde e indica onde cada quadro pode ser visto.
1. Mona Lisa – Leonardo da Vinci, 1503
O sorriso de Lisa Gherardini costuma monopolizar a atenção, mas o objetivo principal de Leonardo era testar o sfumato, técnica que elimina contornos nítidos para reproduzir a visão humana. O artista carregou a obra consigo até a França, sinal de que a considerava um experimento pessoal. Exposição: Museu do Louvre, Paris.
2. O Grito – Edvard Munch, 1893
A figura central não está gritando; ela tapa os ouvidos diante de um “grito” que, segundo relatos do próprio pintor, atravessava a natureza. O quadro expressa angústia interna, não pânico diante de um perigo externo. Em uma versão, Munch escreveu a lápis: “Isto só poderia ter sido pintado por um louco”, frase hoje entendida como ironia. Exposição: Museu Munch, Oslo.
3. Olympia – Édouard Manet, 1863
Apresentada no Salão de 1865, a tela chocou por mostrar uma prostituta contemporânea, e não uma deusa mitológica. A polêmica moral ofuscou o debate social e político proposto pelo pintor. O quadro precisou de guarda para não ser rasgado. Exposição: Museu d’Orsay, Paris.
4. A Última Ceia – Leonardo da Vinci, 1495-1498
Teorias conspiratórias sugerem mensagens secretas, mas Leonardo retratou o instante em que Cristo anuncia a traição de Judas. Os doze apóstolos reagem com gestos calculados em composição regida por perspectiva central. João segue o padrão renascentista de juventude, motivo da aparência andrógina. Exposição: igreja Santa Maria delle Grazie, Milão.
5. O Jardim das Delícias Terrenas – Hieronymus Bosch, 1490-1500
O tríptico não celebra fantasias surrealistas; ele narra a criação, a entrega ao pecado e a danação. A tábua central mostra excessos que conduzem à perdição espiritual. Exposição: Museu do Prado, Madri.
6. A Grande Odalisca – Jean-Auguste-Dominique Ingres, 1814
O corpo alongado e anatomicamente impossível denuncia a intenção de criar um ideal de beleza, não um retrato fiel. O “Oriente” aparece como construção imaginária europeia. Críticas iniciais focaram nos “erros” anatômicos, não no erotismo. Exposição: Museu do Louvre, Paris.
7. O Nascimento de Vênus – Sandro Botticelli, 1485-1486
O nu de Vênus é simbólico: Botticelli buscava representar a elevação espiritual segundo a filosofia neoplatônica, daí as proporções irreais. A encomenda foi feita para uma residência privada da família Médici. Exposição: Galeria Uffizi, Florença.
Imagem: Getty s
8. O Casal Arnolfini – Jan van Eyck, 1434
Apesar de lido como cena de casamento, o quadro funciona como demonstração de status social. Objetos caros e gestos solenes legitimam riqueza e respeitabilidade. A assinatura “Jan van Eyck esteve aqui” aparece na parede ao fundo. Exposição: National Gallery, Londres.
9. O Banho Turco – Jean-Auguste-Dominique Ingres, 1863
Pintado quando o artista tinha 80 anos, o harém surgiu apenas da imaginação e de estudos antigos. O Oriente serve como cenário fantasioso para corpos femininos dispostos de forma ornamental. Apresentada primeiro a um patrono, a obra escandalizou pelo número de nus e acabou adquirida pelo Estado francês anos depois. Exposição: Museu do Louvre, Paris.
10. O Beijo – Gustav Klimt, 1908
Vista como celebração do amor absoluto, a tela também sugere dissolução da identidade individual: a figura masculina cobre a parceira, e os padrões dourados quase fundem os corpos num único bloco. Comprada imediatamente pelo Estado austríaco na estreia pública, permanece no Palácio Belvedere, Viena.
As dez pinturas continuam a atrair visitantes e pesquisas, lembrando que a popularidade pode, às vezes, esconder nuances essenciais de sua concepção original.
Com informações de Casa Vogue
