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Nádia Taquary destaca legado feminino negro em ateliê de Salvador

Salvador — A artista visual Nádia Taquary transformou o ateliê de 300 m² onde trabalha há quase duas décadas, na cobertura de um prédio às margens da Baía de Todos-os-Santos, em palco para exaltar a ancestralidade da mulher negra. Nascida em Valença, no interior baiano, a criadora de 44 anos (idade aproximada, não oficial), mudou-se para a capital aos 17, formou-se em Letras pela Universidade Católica do Salvador (UCSal) e concluiu pós-graduação em Educação, Estética, Semiótica e Cultura na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

A trajetória nas artes começou apenas aos 40 anos, durante o luto pela morte de um parente. Na fase de recolhimento, Taquary mergulhou em pesquisa sobre arte africana e joalheria afro-brasileira, inspirada pelo acervo do Museu Carlos Costa Pinto, que guarda a tradicional penca de balangandãs. Dessa referência nasceu a videoinstalação Abre Caminhos, primeira obra da carreira.

Séries que homenageiam orixás e mães ancestrais

Entre os projetos mais conhecidos está Oríkì, conjunto de esculturas de bronze ou madeira em que cabeças – parte sagrada do corpo na cultura iorubá – recebem penteados de palha, búzios e miçangas. Na mesma linha, a série Dinkas Orixás apresenta totens que reproduzem cores e atributos das divindades: Oxum (amarelo), Iemanjá (azul) e Iansã (marrom) abriram a coleção.

A relação com a mitologia africana segue em Ònà Irin: Caminho de Ferro, exposição individual que permanece no Sesc Belenzinho, em São Paulo, até 22 de fevereiro. A mostra reúne 22 trabalhos sob curadoria de Amanda Bonan, Ayrson Heráclito e Marcelo Campos, incluindo instalação dedicada a Ogum, onde trilhos refletidos por espelhos criam ambiente imersivo. O conjunto passou antes pelo Museu de Arte do Rio e pelo Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, entre 2023 e 2024.

Outra vertente da produção aparece nas esculturas em bronze Ìyámìs, grandes mães ancestrais da cultura iorubá, confeccionadas pela técnica de fundição Ashanti trazida ao Brasil por ourives escravizados. Obras como Mulher Pássaro e Menina Pássaro foram exibidas na 35ª Bienal de São Paulo – “Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática” – em torno da instalação Ìrókó: A Árvore Cósmica, estrutura coberta por centenas de milhares de miçangas de fibra de vidro que mobilizou 25 mulheres ao longo de nove meses.

Ateliê à beira-mar e novos projetos

O espaço de criação de Taquary, reformado pela arquiteta Ana Paula Magalhães, oferece vista para o mar e, segundo a artista, aproxima-a de Iemanjá, orixá de quem se considera filha. Quando a produção pede área maior — caso de Ìrókó — o trabalho migra para galpões temporários. No momento, ela aprofunda pesquisa sobre o legadodo Mestre Didi.

A artista afirma que sua missão é “desconstruir o olhar único e descolonizar o pensamento”, levando a história afro-brasileira a mais pessoas por meio da arte.

Com informações de Casa Vogue

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